Medicamentos e obesidade no tratamento do Transtorno Bipolar

O ganho de peso associado ao uso de medicamentos no tratamento de doenças psiquiátricas será o tema da reunião-palestra de abril do Grupo de Apoio aos Pacientes com Transtorno do Humor Bipolar (GAPB). O encontro será realizado na terça-feira, dia 24 de abril, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Segundo dados do grupo de estudos da Psiquiatria Molecular do HCPA, estima-se que a prevalência da obesidade em pacientes psiquiátricos tratados farmacologicamente seja de duas a cinco vezes maior do que na população em geral. De acordo com a nutricionista e mestranda em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS), Juliana Andrade, uma das possíveis causas é a de que a medicação usada para o tratamento da depressão pode levar ao ganho de peso. “Este fator frequentemente contribui para a não adesão do tratamento psiquiátrico. A interrupção pode culminar em uma recaída e novas internações”, explica.

Acompanhe abaixo uma entrevista realizada com a nutricionista Juliana Andrade:

GAPB – Quais são os principais problemas de saúde que uma pessoa obesa pode enfrentar?

Juliana – A obesidade é um importante problema de saúde pública e está associada a várias doenças como a Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus, Dislipidemia (aumento do colesterol e triglicérides no sangue), risco de Doenças Cardíacas, associados com um aumento de mortalidade.


Juliana – 
Sim, pode, pois a maioria dos medicamentos psiquiátricos são conhecidos por gerar ganho de peso, podendo levar à obesidade em alguns pacientes. Este fator frequentemente contribui para a não adesão ao tratamento psiquiátrico e esta interrupção pode culminar em uma recaída e novas internações.GAPB – E uma pessoa com um transtorno psiquiátrico pode ganhar peso mais facilmente do que as outras pessoas?

GAPB – Existem recomendações que poderiam ser seguidas para amenizar o efeito do aumento de peso?

Juliana – Sim, os pacientes devem ser instruídos sobre o ganho de peso como um efeito adverso das medicações psiquiátricas. Devem ser orientados ao monitoramento do seu peso corporal, como um padrão de cuidados, assim como realizar exames de sangue e verificação dos sinais vitais para garantia da detecção precoce. Esta intervenção é a chave para prevenir significativamente o ganho ponderal e os fatores associados.

Outras formas de amenizar o efeito é atentar para a importância da modificação do estilo de vida e dos padrões comportamentais (tabagismo, inatividade física, hábitos alimentares), para reduzir o peso corporal, influenciando positivamente no tratamento medicamentoso.

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Serviço:
O quê? Reunião do Grupo de Apoio a Pacientes com Transtorno Bipolar (GAPB), tema “Cuidados com alimentação no transtorno bipolar”, com a nutricionista e mestranda em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS), Juliana Andrade
Quando? Dia 24 de abril, terça-feira, às 19h.
Onde? Sala 160, Hospital de Clínicas de Porto Alegre (Rua Ramiro Barcelos, 2350).
Quanto? a palestra é gratuita
Como? Basta chegar 15 min antes das 19h, apresentar-se na recepção central do hospital (em frente ao Banco do Brasil) e pedir para ser direcionado para a reunião do GAPB – na sala 160.
Atenção: Não é necessário inscrição e não fornecemos certificado.

Contato: 51 3359-8846, e e-mail contatogapb@gmail.com 

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Entrevista: O médico Leonardo Silveira fala sobre a genética no Transtorno Bipolar

Entrevistamos o residente em Psiquiatria, Leonardo Silveira*, sobre o tema da próxima reunião. Confira:


GAPB – Dr. Silveira, qual é o papel da genética para o Transtorno de Humor Bipolar?

Dr. Leonardo Silveira – A genética está relacionada às causas do THB, desta forma este conhecimento poderá esclarecer a origem e auxiliar no encaminhamento de tratamentos para os pacientes.

Estudos têm esclarecido o que antes se constatava apenas através da impressão clínica. Há muito se observa que a ocorrência do THB apresenta agregados familiares. Ou seja, a chance de alguém ter a doença aumenta quando há um parente com o mesmo diagnóstico.

GAPB – Então quem tem pais com o transtorno pode ter também?

Dr. Leonardo Silveira – Não quer dizer que vai desenvolver, mas que a chance aumenta. Se um dos pais tem a doença, o filho terá entre 10 e 25% de risco para transtorno do humor. Se ambos os pais tiverem a doença, o filho terá o dobro deste risco. Relevante também é o papel do ambiente. Sabe-se que, por exemplo, história pessoal de trauma emocional pode alterar o curso do THB.

GAPB – Há algum gene que aponte a ocorrência do THB?

Dr. Leonardo Silveira – Ainda há dificuldades de se identificar um gene que determine a doença. As teorias mais recentes apontam para a possibilidade de que múltiplos genes influenciem o desenvolvimento do transtorno.

Possivelmente também o THBI e o THBII apresentem herança genética semelhante, mas não idêntica. Estudos com gêmeos têm sugerido que a genética explica entre 50 a 70% da etiologia do THB.

GAPB – E de que forma o conhecimento genético pode influenciar no tratamento do paciente de THB?

Dr. Leonardo Silveira – Os estudos sobre a genética do THB fornecem dados importantes para esclarecer como o transtorno se desenvolve. Desta forma, também se descobrem novos fármacos para o tratamento. Futuramente, estes estudos poderão auxiliar diretamente o médico ao se analisar qual fármaco trata melhor determinado paciente com determinada carga genética. Assim, um tratamento mais personalizado e eficaz poderá ser empregado. No entanto, a farmacogenética, nome deste novo campo de pesquisa, ainda não está disponível para aplicação na clínica.

Referência: Kaplan & Sadock’s Comprehensive Textbook of Psychiatry, 9a edição.

*Leonardo Silveira é médico, graduado em 2008, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008). Faz residência em Psiquiatria na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e é pesquisador no Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre/UFRGS. Aluno de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria pela UFRGS (2011), sob a orientação do Prof. Flávio Kapczinski.